Último Turno - Stephen King

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Iniciada em Mr. Mercedes - resenha aqui, a trilogia Bill Hodges finalmente chegou ao seu encerramento com Último Turno, um livro que pode surpreender alguns e decepcionar outros. Nesta obra, Stephen King "abandona" o lado investigativo adotado nos dois volumes anteriores e retorna, de uma forma não tão interessante, para o sobrenatural. 



Brady Hartsfield, o diabólico Assassino do Mercedes, está há cinco anos em estado vegetativo em uma clínica de traumatismo cerebral. Segundo os médicos, qualquer coisa perto de uma recuperação completa é improvável. Mas sob o olhar fixo e a imobilidade, Brady está acordado, e possui agora poderes capazes de criar o caos sem que sequer precise deixar a cama de hospital. O detetive aposentado Bill Hodges agora trabalha em uma agência de investigação com Holly Gibney, a mulher que desferiu o golpe em Brady. Quando os dois são chamados a uma cena de suicídio que tem ligação com o Massacre do Mercedes, logo se veem envolvidos no que pode ser seu caso mais perigoso até então. Brady está de volta e, desta vez, não planeja se vingar apenas de seus inimigos, mas atingir toda uma cidade.





As primeiras páginas de Último Turno retornam ao crime inicial de Brady Hartsfield, o Mr. Mercedes, visto sob o ponto de vista dos socorristas Rob Martin e Jason Rapsis, que quase colidiram a ambulância com a Mercedes que vinha na contramão enquanto se deslocavam para o local. Quando chegaram no City Center, a cena não poderia ser outra: caos e sofrimento já haviam se apoderado do lugar, onde pessoas corriam e sofriam. Martine Stover, a vítima que mais se feriu, foi socorrida pelos dois e levada imediatamente para o hospital, onde ela iria receber a notícia de que havia se tornado tetraplégica. 

Passados alguns anos, já em 2016, Bill Hodges recebe uma ligação de Pete, seu antigo companheiro que irá se aposentar, que lhe informa sobre um caso, sua provável e estrondosa última investigação: um curioso assassinato seguido de suicídio. Supostamente a mãe de Martine Stover havia matado a filha e suicidado após o ato, porém, quando Bill e Holly, companheira da Agência Achados e Perdidos, chegam ao local do crime, notam que algumas coisas não estavam se encaixando e insistem que isso deveria ser investigado de forma profunda, até mesmo pelo fato de uma das vítimas estar ligado a Brady, que naquele momento estava no hospital vegetando em uma cama. 

Trilogia Bill Hodges

- Ele ainda não acabou com você.
Pág.: 103

Último Turno é um verdadeiro caso de amor e ódio. Não posso dizer que amei, mas também não posso afirmar que odiei, uma vez que reconheço as qualidades e os defeitos presentes na trama. A minha decepção em relação a este livro gira em torno da sua potencialidade que não foi bem explorada pelo autor, visto que seus elementos e a sua construção possibilitavam algo singular e aterrorizante, que é a sua marca conhecida. Entretanto, os assuntos trabalhados em segundo plano se mostraram interessantes, além de evidenciar a evolução da história e dos personagens, como é o caso do próprio Bill, onde percebe-se um maior foco nas consequências da sua idade avançada. Desta forma, não é difícil vê-lo refletir sobre as pessoas ao seu redor, o seu cansaço e suas queixas das dores de uma possível doença.

Como dito no inicio do texto, King faz um retorno ao lado sobrenatural, mas ainda continua trabalhando assuntos que fogem do surrealismo, assuntos mais humanos que já foram aplicados e explorados nos outros dois volumes, como as consequências da obsessão e a perversidade humana, além da influência da tecnologia, que aqui se fez mais que presente e se tornou elemento importante para a construção de toda a trama. Os mistérios sustentados giram em torno, sobretudo, da possível ligação de Brady com os crimes, mas como ele estaria fazendo isso era um grande enigma a ser decifrado por Bill e Holly. 

Acredito que o grande problema deste livro foram os rumos adotados pelo autor, que, após a finalização da leitura, mostraram-se de péssima escolha, além de desviar completamente do propósito inicial da trilogia que era o lado investigativo. A transição entre a investigação e o sobrenatural é mais que perceptível, uma vez que foi feita de forma bruta e apressada, incomodando até mesmo aqueles que já estavam aguardando o lado surreal/fantasioso. Por outro lado, no entanto, a construção da trama ajudou a amenizar um pouco esse sentimento, já que ela é feita de forma não-linear, como se todas as histórias fossem peças de um quebra-cabeça, e King foi capaz de uni-las de um jeito surpreendente. Em consequência, assim como nos outros volumes, temos diferentes pontos de vistas que fogem do tradicional Bill e Brady, além de ser narrado em terceira pessoa. 

Fim?

Brady observou a mulher com os olhos arregalados se movendo de um lado para outro, estudando a tela, e soube que tinha encontrado o que estava procurando. Os peixes rosa, ele pensou. São os que se movem mais rápido e, além do mais, vermelho é uma cor raivosa. O rosa é... o quê? Qual era a palavra? A palavra veio, e ele sorriu. Foi o sorriso radiante que o fazia parecer ter dezenove anos de novo.
Rosa era tranquilizador.
Pág.: 247

A sensação que tive ao ler o seu encerramento foi que não estou lendo um livro escrito por Stephen King. Não que ele tenha sido decepcionante, mas a sua construção e seus elementos não se caracterizavam algo típico do autor. A trilogia Bill Hodges tem suas qualidades e seus defeitos, assim como qualquer obra, mas o que percebi ao longo das leituras foi a falta de uma exploração maior nas suas potencialidades, além do já citado desvio tomado por S.K.. Entretanto, deixo a minha recomendação àqueles que já leram outros livros de King, mas não recomendo àqueles que estejam querendo experimentar essa escrita como pontapé inicial para ingressar no mundo literário do autor. 

A diagramação está simples, mas com um ótimo espaçamento entre linhas e um tamanho de fonte agradável. Na edição temos páginas amareladas e uma diferente ilustração na capa que, apesar de divergir das demais, mostrou-se intrigante e bela. Quanto a revisão, não encontrei erros aparentes.