O Evangelho de Loki - Joanne M. Harris

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Tendo como objetivo mostrar os acontecimentos presentes na mitologia nórdica, desde a criação dos mundos até o Ragnarök, o Crepúsculo dos Deuses, por uma diferente e surpreendente ótica, O Evangelho de Loki consegue ser fascinante e viciante desde o seu prólogo até o seu encerramento, prendendo o leitor do começo ao fim. 




Com sua notória reputação para trapaças e enganações, Loki é um deus nórdico sem igual. Nascido demônio, é visto com profundas suspeitas por seus companheiros deuses, que jamais o aceitarão como um deles; por conta disso, Loki promete se vingar. Mas enquanto o deus-demônio planeja a derrocada de Asgard e a humilhação dos seus opressores, poderes maiores conspiram contra os deuses e uma batalha é arquitetada para mudar o destino dos Mundos. Do recrutamento por Odin do reino do Caos, através dos anos como solucionador de problemas de Asgard, até a perda do seu posto no desenrolar para o Ragnarök, este é o Evangelho de Loki, a sua longa e curiosa versão da história — e se alguém disser o contrário, não acredite!





Depois de tantas versões disseminadas ao longo dos anos, Loki nos apresenta o seu ponto de vista dos acontecimentos, e seus pensamentos sobre estes, contrariando a versão autorizada que é sustentada pelo Oráculo. Para começarmos, ele nos conta que a vida como a conhecemos veio da ruptura do gelo do Mundo Superior pelo fogo do Mundo Inferior, originando o primeiro homem, Buri, pai de Bór, que por sua vez é pai de Odin, Vili e Vê; e que os mundos foram erguidos através das ganâncias dos deuses. A ganância e sede de poder de Odin, o Caolho, o Ancião e Pai de Todos, acabou resultando em alguns conflitos, principalmente com o povo do gelo e da pedra, e inimigos poderosos, como a feiticeira Gullveig-Heid. 

Loki, filho de um relâmpago e de uma pilha de galhos secos, é um demônio, um Incêndio, que acaba "traindo" o Caos e o mundo inferior após abandonar seu Aspecto flamejante, aventurando-se no mundo superior e fazendo um acordo com Odin em que ele iria proteger/auxiliar e questionar a Ordem em seu reino em troca de se tornar um Deus. Apesar das promessas de proteção do Pai dos Deuses, ele acaba sendo repudiado em Asgard, onde sofre o preconceito e a opressão dos asgardianos, e experimenta sensações inéditas, como a dor, já que agora terá que assumir uma forma humana. Ao tentar se aproximar dos outros deuses, acaba por complicar ainda mais sua relação com eles diante de uma situação inesperada, mas seus truques e trapaças os surpreendem. Apesar disso, acaba por fazer alguns inimigos, como Thor e Heimdall. Traído pelas palavras e promessas de Odin que nunca se cumpriram, ele começa a buscar a sua vingança explorando as fraquezas dos deuses e gerando alguns conflitos até a queda de seus traidores. 

Loki: vilão ou injustiçado?

No final das contas, palavras são o que resta quando todas as ações estão completas. Palavras podem estilhaçar a fé, dar início a uma guerra, mudar o curso da história. Uma narrativa pode fazer seu coração bater mais rápido, derrubar paredes, escalar montanhas... Ei, uma boa trama pode até levantar os mortos. E é por isso que o Rei das Histórias se tornou o Rei dos deuses, por que escrever e fazer história estão apenas a uma página de diferença.
Pág.: 19

Os Filhos de Odin (Padraic Colum) foi uma leitura que fiz em 2015. Desta maneira, foi quase impossível não me recordar deste livro ao ler O Evangelho de Loki, já que algumas histórias se mostraram bem semelhantes, apesar da versão de Colum se aproximar mais da narrada pelo Oráculo. Entretanto, ambos compartilham da mesma qualidade: a escrita. Joanne M. Harris se mostrou expert com as palavras e conseguiu assumir a personalidade do Deus Trapaceiro, deixando a estranha e interessante sensação de que a obra em si foi escrita por ele, já que seu senso de humor, seu sarcasmo e cinismo foram adequadamente evidenciados e representados. 

Fazendo jus à sua proposta, neste livro é Loki quem nos narra sua versão dos fatos, assumindo o papel de Aquele que vos Fala, ocasionando momentos engraçados face a sua singular personalidade, que, de uma forma ou de outra, cativa o leitor quase que de imediato. A obra é dividida em quatro partes: Luz, Sombra, Pôr do Sol e Crepúsculo, todas trazendo as Lokabrenna: as lições deixadas pelo Deus Trapaceiro, como em quem não devemos confiar e coisas da vida/cotidiano. Apesar de existir essa divisão, algumas histórias não seguem uma ordem cronológica, o que pode confundir alguns leitores. Outro fator a ser levado em conta é que senti uma narrativa mais lenta na metade do livro, mas nada que influencie muito no conjunto final da obra. 

Como dito, a autora sabe utilizar muito bem as palavras, causando sensações e sentimentos nos leitores. Com seus personagens as coisas não foram diferentes, já que suas personalidades foram tão bem trabalhadas que é quase impossível não odiar ou amar algum, até mesmo os secundários. Acredito que este livro não tem um personagem principal, já que não senti um enfoque em somente um, mas em todos e em como se dão suas relações. Loki e Thor são tidos como inimigos, como já lido e visto em outros lugares, entretanto, não percebi tamanha inimizade entre eles, mesmo havendo discussões e conflitos entre as partes. 

Autora

Nunca confie em ninguém: um amigo, um estranho, um amante, um irmão, uma esposa. Mas antes de tudo, lembre-se disso: Nunca confie em um Oráculo.
Pág.: 237

Essa visão de um Loki injustiçado e traído foi bastante interessante, já que retira sua imagem de vilão, ou quase justifica suas posteriores ações, além de trazer uma nova imagem de Odin, o Pai de Todos e dos Deuses. Como dito pelo próprio Deus Trapaceiro, estas histórias não contam com um começo e nem com um fim, entretanto, posso dizer que o encerramento deste livro consegue ser envolvente e fascinante. Assim como o Evangelho de Judas, creio que o real objetivo desta obra não é entrar em conflito com as outras versões da história e se impor acima delas como A Verdadeira, mas expor o outro lado da moeda. 

A diagramação está simples; com um ótimo espaçamento entre linhas e um tamanho de fonte agradável. Na edição contamos com páginas amareladas, uma lista de personagens antes do Prólogo, com descrições feitas pelo próprio Loki, mostrando sua visão sarcástica e cínica dos mesmos, além de uma bela ilustração na capa com detalhes em dourado, como algumas folhas da árvore e o título do livro. Quanto a revisão, não encontrei erros aparentes. Deixo a minha recomendação a todos os amantes da mitologia nórdica e a quem esteja querendo conhecer mais a personalidade d'Aquele que vos Fala.

É um mundo louco onde os deuses se devoram.
                                                       Lokabrenna
Pág: 300