Gigantes Adormecidos - Sylvain Neuvel

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Conhecido no exterior como um dos melhores inícios de série, Gigantes Adormecidos, escrito por Sylvain Neuvel, foi uma leitura atípica, mas que se mostrou dotada de qualidades desde o começo. Não poderia negar que a beleza artística da capa e sua sensibilidade chamaram bastante a minha atenção, assim como deve ocorrer com os amantes da astronomia e do universo.


Rose passeia de bicicleta pelo bosque perto de casa, quando de repente é engolida por uma cratera no chão. A cena intriga os bombeiros que chegam ao local para resgatá-la: uma menina de onze anos caída na palma de uma gigantesca mão de ferro. Dezessete anos depois, Rose é ph.D em física e a nova responsável por estudar o artefato que encontrou ainda criança. O objeto permanece um mistério, assim como os painéis que cercavam a câmara onde foi deixado. A datação por carbono desafia todas as convenções da ciência e da antropologia, e qualquer teoria razoável é rapidamente descartada. Quando outras partes do enorme corpo começam a surgir em diversos lugares do mundo, a dra. Rose Franklin reúne uma equipe para recuperá-las e montar o que parece ser um robô alienígena gigante quase tão antigo quanto a raça humana. Mas, uma vez montado o quebra-cabeças, ele se transformará em um instrumento para promover a paz ou causar destruição em massa? Parte ficção científica, parte thriller, Gigantes adormecidos é uma história viciante sobre a disputa pelo controle de um poder capaz de engolir todos nós.


No prólogo somos apresentados a Rose Franklin, ainda na infância, e ao momento em que ela caí em uma cratera que mais tarde se revelaria ser uma gigante mão. Após seu resgate, o exército isolou o local e passou a estudar o que havia na cratera, já que além dela, alguns misteriosos painéis foram encontrados e apresentavam uma desconhecida linguagem que até mesmo os melhores linguistas não conseguiram decifrar. O mais curioso sobre objeto é que ele desafia todos os conhecimentos, sobretudo sobre ciência e antropologia, e preceitos já estabelecidos, já que sua datação por carbono ficou entre 5 a 6 mil anos. 

Passados dezessete anos, Rose já é PhD. em física. Segundo ela, o evento ocorrido no passado não influenciou na escolha de sua carreira e que ela já era apaixonada pela ciência bem antes de ter caído. Após a morte do coronel Hudson, o projeto foi abandonado por 14 anos até que a universidade de Chicago assumiu a pesquisa com recursos da NSA (Agência de Segurança Nacional) e sob a responsabilidade de Rose. Devido a isso, ela se vê destinada a estudar a mão em que havia caído anos atrás, além de ir atrás, juntamente com a sua equipe, de novas peças e enfrentar as possíveis consequências que esta pesquisa resultará. 

Um toque nas estrelas. Um toque para mudanças. *

É razoável partir do princípio de que a evolução da maioria das espécies de hominídeos, senão todas seguiu mais ou menos os mesmos passos. Fazer fogo, inventar a roda, esse tipo de coisa. A capacidade de voar talvez fosse um bom critério, ou quem sabe voos espaciais. Se alguém olha para o céu, sem dúvida vai tentar chegar lá em algum momento, e espécies que conquistam o espaço precisam pelo menos estar abertas à possibilidade de que não estão sozinhas no Universo.
Pág.: 31

"Sensacional" talvez seja a melhor palavra para definir esta leitura. Com uma narrativa singular, Gigantes Adormecidos, primeiro volume da trilogia Os Arquivos de Themis, é desenvolvido através de entrevistas, em sua maioria, diários e peças jornalísticas, além de ser narrado em primeira pessoa, o que tornou esta experiência única e envolvente. Em um primeiro contato, esta estrutura narrativa pode causar estranheza, já que não é algo tão comum de se ver nos romances, podendo até cansar e levar alguns leitores a desistência por ser algo um pouco repetitivo. Por outro lado, no entanto, o prólogo é a única parte que é narrada de forma convencional.

Com um enredo emocionante, a trama apresenta diversos mistérios e uma singela filosofia, além de fazer alguns questionamentos, como "e o que acontecerá depois de montado?", pois, como constatado, a junção das "partes" encontradas nas crateras resultaria em um gigante robô alienígena e as suas intenções ainda eram desconhecidas. A própria identidade do entrevistador, que está comandando tudo, é um grande segredo, já que não sabemos nem seu nome e o pouco que é revelado durante as entrevistas deixa claro que ele não participa de nenhuma instituição governamental, mas que detêm grandes influências sobre elas. Como se tudo isso não bastasse, a história ainda apresenta alguns dados científicos, bem como inesperadas e marcantes reviravoltas que, de uma forma ou de outra impulsionarão o seu ritmo de leitura, além de "brincar" um pouco com a ambição e o psicológico humano, visto que alguns acidentes irão ocorrer durante o "resgate" das outras partes.

Gigantes Adormecidos apresenta personagens que destoam um do outro, como a Rose, que além de assumir um importante papel dentro da pesquisa, é bastante curiosa e, por conta disso, empenhada nos seus objetivos e no que está realizando. Por outro lado, Kara Resnik, 3ª subtenente do exército dos Estados Unidos, é uma desbocada, ousada e competente piloto de helicóptero, ao passo que seu copiloto, Ryan Mitchel, é íntegro e um pouco inteligente. Desta forma, é muito fácil se envolver com a história e seus personagens, que vamos conhecendo aos poucos ao longo das entrevistas e passagens de diários.

Capas da edição norte americana do primeiro e segundo volume.

O que posso dizer é o seguinte: em um galpão subterrâneo em Denver, há uma prova definitiva de que não estamos sozinhos no Universo, assim como evidências irrefutáveis de que existem civilizações que estão milhares de anos na nossa frente em termos tecnológicos. Além disso, estamos cada vez mais perto de conseguir utilizar uma parte desse conhecimento. Pode ser um salto de proporções monumentais para a toda a humanidade, e não só do ponto de vista tecnológico. Isso vai mudar a maneira como pensamos o mundo, a forma como nos vemos. Isso vai moldar o planeta, e temos a oportunidade de liderar essa mudança. Quantas vidas isso vale para você?
Pág.: 140

O livro não contém um final definitivo por fazer parte de uma trilogia, mas o seu encerramento deixa bons ganchos que devem ser explorados no próximo volume, Waking Gods (Despertar dos Deuses em tradução livre), que será lançado em 2017 nos EUA. Como a trama é bastante detalhada e cheia de surpresas, não pude revelar muito sobre ela, já que em algum momento poderia acabar contando algum spoiler e consequentemente estragar a experiência de leitura de vocês, o que não é meu objetivo. Espero que tenham a mesma surpresa e empolgação que tive ao ler esta obra, a qual já está entre uma das minhas favoritas.

A diagramação está simples, mas com um tamanho de fonte agradável e um ótimo espaçamento entre linhas. Na edição temos páginas amareladas e uma capa um tanto quanto intrigante, já que só apresenta a belíssima ilustração e o seu título, deixando o nome do autor e o logo da Suma de Letras na lombada. Não encontrei erros aparentes na revisão. Deixo a minha recomendação aos amantes do universo e da ciência.

*Ilustração presente na versão norte americana