Achados e Perdidos - Stephen King

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Stephen King é um daqueles autores que dificilmente conseguem te decepcionar. Apesar de contarem com tramas diferentes, estava moderadamente ansioso e empolgado para ler Achados e Perdidos, sequência de Mr. Mercedes, primeiro volume da trilogia Bill Hodges, que também trabalha com assuntos psicológicos. Uma história baseada nos limites do fanatismo e o amor pela literatura. 



“— Acorde, gênio.”
Assim King começa a história de Morris Bellamy. O gênio é John Rothstein, um autor consagrado que há muito abandonou o mundo literário. Bellamy é seu maior fã e seu maior crítico. Inconformado com o fim que o autor deu a seu personagem favorito, ele invade a casa de Rothstein e rouba os cadernos com produções inéditas do escritor, antes de matá-lo. Morris esconde os cadernos pouco antes de ser preso por outro crime. Décadas depois, é Peter Saubers, um garoto de treze anos, quem encontra o tesouro enterrado. Quando Morris é solto da prisão, depois de trinta e cinco anos, toda a família Saubers fica em perigo. Cabe ao ex-detetive Bill Hodges e a seus ajudantes, Holly e Jerome, protegê-los de um assassino agora ainda mais perigoso e vingativo.




A trama se inicia em meados de 1978, quando a residência de John Rothstein, escritor aposentado que ganhou reconhecimento com a sua trilogia O Corredor, foi invadida por três rapazes, sendo que um deles era Morris Bellamy, seu grande fã e quem estava comandando toda a invasão. Insatisfeito com o final que o autor deu à Jimmy Gold, seu personagem favorito, ele obriga Rothstein a entregar seus manuscritos, porém, após uma discussão, acaba matando seu ídolo, além de roubar dezenas de cadernos que continham anotações e histórias ainda não publicadas. Fanático como era, exclusividade era o que ele queria. Desta forma, decide não os vender, mesmo estando ciente que aqueles livros poderiam lhe proporcionar grandes lucros, mas acaba escondendo-os junto com uma parte do dinheiro roubado do cofre dentro de uma caixa em um tronco de árvore próximo da sua casa. Contudo, as coisas começaram a mudar quando ele foi condenado a passar quase 40 anos na prisão por outro crime em 1979. 

Passados 35 anos, Bellamy recebe sua liberdade condicional e vai em busca de seu maior tesouro: os manuscritos e o dinheiro, porém, nada encontra. Peter Saubers, um adolescente de 13 anos, foi quem achou a caixa anteriormente e estava usando o dinheiro encontrado para ajudar o pai, uma das pessoas que haviam escapado do atropelamento do Mr. Mercedes, a enfrentar a crise econômica que o país sofria no momento, além de ter tido a ideia de vender os cadernos. O que ele não sabia é que isso colocaria a sua vida e a de seus familiares em risco. 

Uma caixa. Um encontro. Uma consequência.

Rothstein pensou: E se ele puxar o gatilho? Seria o fim dos comprimidos. O fim dos arrependimentos e dos montes de relacionamentos desfeitos, que ficaram pelo caminho como carros quebrados. O fim da escrita obsessiva, de acumular caderno atrás de caderno como pilhas de cocô de coelho espalhadas por uma trilha no bosque. Uma bala na cabeça não devia ser tão ruim. Melhor do que câncer ou Alzheimer, o grande horror de qualquer um que passou a vida usando o cérebro como ganha-pão. Claro que haveria manchetes, e já tivera muitas antes mesmo da porcaria da história da Time... Mas, se ele puxar o gatilho, eu não vou ter que lê-las.
Pág.: 19

Depois de já ter lido vários livros do Stephen King, acredito que ele poderia ter dado mais de si nesta trama, já que seus elementos lhe permitiam uma maior exploração. Entretanto, ela ainda consegue ser superior à do primeiro volume, além de te deixar nervoso, ansioso e provocar nossas emoções, o que culminou em um rápido ritmo de leitura. Em um primeiro e rápido contato, a sinopse da obra pode deixar a impressão de que há muitas semelhanças com Misery (1987), já que ambos trabalham inteiramente com as consequências do fanatismo e a perversidade humana, porém, não passa disso, visto que seus desenvolvimentos e circunstâncias são completamente diferentes. 

Narrada em terceira pessoa, a trama de Achados e Perdidos é dividida em quatro partes e é apresentada sob o ponto de vista de Morris Bellamy, Peter Saubers e o detetive Bill Hodges, além de oscilar entre 1978 e 2014. Algumas pessoas podem considerar o enredo um pouco arrastado e enrolado em certos momentos, principalmente na segunda parte, onde há o retorno do trio já conhecido no primeiro volume: o detetive, Jerome Robinson e  Holly, que se unem para resolver mais um mistério. 

Os personagens foram bem desenvolvidos, apresentando histórias e dramas que conseguiram trazer alguns debates e reflexões, principalmente quando nos centramos na personalidade de Bellamy, que sofreu estrupo e tolerou os conflitos enquanto preso. Desta forma, percebe-se que a perversidade humana é algo bem explorado nestes livros e que os traumas que ficam podem moldar a nossa forma de pensar e de viver.

Capa do terceiro e último volume.

E deu certo, pensa. O grande problema foi não ter parado quando eu estava ganhando.
Mas.
Tarde demais agora.
Pág.:180

O final foi um pouco previsível, mas as emoções ainda se mantiveram. Achados e Perdidos, assim como seu antecessor, está longe de ser o melhor livro do autor, porém, não deixa de ser uma leitura indispensável dentro da trilogia, mesmo os títulos tendo histórias diferentes. Último Turno, terceiro e último volume, promete surpreender os leitores e dar um ótimo encerramento a série. 

A diagramação está simples, mas com um ótimo espaçamento entre linhas e um tamanho de fonte agradável. Na edição temos páginas amareladas e uma bela ilustração na capa, porém, a tradução do título (Finders Keepers) ficou um pouco fora do contexto, apesar de aparentar se referir a trama. Não encontrei erros aparentes na revisão. Leitura recomendada!