Temporada dos Ossos - Samantha Shannon

Hey pessoal, tudo bem?

O que dizer desse livro que me despertou amor e ódio e já considero pacas? Temporada dos Ossos, primeiro volume da série Bone Season, me fez ter opiniões muito conflitantes. Apesar de ter uma história original e uma narrativa envolvente e alucinante, a autora pecou pelo excesso no uso de palavras muito "diferentes", o que pode causar um certo desconforto, ou até mesmo confusão no leitor. Contudo, isso não apaga o fato de que atualmente estamos em um mercado editorial onde sempre há o famoso "mais do mesmo", e que Temporada dos Ossos veio para quebrar essa uniformidade literária que vivemos atualmente. 



Distopia com uma pegada sobrenatural são os ingredientes da série Bone Season, de Samantha Shannon, que chega ao Brasil pelo selo Fantástica Rocco. Ambientada em 2059, a trama acompanha a protagonista Paige Mahoney, uma andarilha onírica, alguém capaz de entrar na mente das pessoas e captar pensamentos e fragmentos de sonhos. Considerada traidora pelo governo, Paige paga por seu dom com a sua liberdade e é enviada para uma prisão secreta em Oxford. Lá, ela conhece os Rephaim, criaturas de uma raça antiga que desejam controlar a clarividência de Paige e de outros como ela, e precisará aprender a confiar em aliados improváveis não só para reconquistar a liberdade, mas garantir a própria sobrevivência. Considerada um dos principais nomes da literatura de fantasia dos últimos tempos, Samantha Shannon entrega aos leitores um romance surpreendente e arrebatador.



O livro conta a história de Paige Mahoney, uma jovem que vive em uma Londres distópica onde pessoas com habilidades clarividentes são tratadas como a doença da sociedade, afinal, a sociedade teme a ligação entre eles e o mundo dos mortos. Dentre os tipos de clarividentes, temos os médiuns, videntes, agregadores, cartomantes, aurospicistas, necromantes, cristalomantes, etc, e nossa protagonista, que é uma rara andarilha onírica. Durante anos ela levou uma vida clandestina, até o momento em que é capturada pelo novo sistema de governo e levada para Sheol I, um local dominado por criaturas que a desprezam como ser humano, mas que desejam seu poder acima de tudo. Quando a última esperança se apaga, é preciso confiar no inimigo para sobreviver.
 
 Alguns são capazes de ver outros mundos em uma bola de cristal.

Eu sempre soube que não havia paraíso algum. Jax tinha repetido isso para mim várias vezes. Até o Mestre havia falado isso. Havia apenas uma luz branca, a última luz: um descanso final na fronteira da consciência, o local onde todas as coisas chegam ao fim. Além disso, ninguém sabia. Mas, se havia um paraíso, devia ser assim. Tocar o éter com minhas mãos nuas. Eu nunca poderia ter previsto aquilo, não com ele. Nem com ninguém.
Pág.: 394

Como disse no começo do texto, estamos vivendo um mercado editorial onde é raro encontrar uma história original e que não te deixe com aquela sensação de "já vi isso em algum lugar", e é aí que Temporada dos Ossos inova. Confesso que me senti bem perdido no começo do livro, pois a autora usa muitas gírias específicas do mundo que criou, bem como palavras que eram constantemente usadas na Londres do Séc. XIX. Contudo, isso não ofusca a originalidade geral da obra, uma vez que ela apresenta ideias únicas e um mundo distópico criado à sua maneira. O que mais me chamou a atenção na foi a extensão dos poderes de Paige, afinal, algo que inicialmente parece ser simples pode se tornar uma arma letal, com o devido treinamento, e esse processo foi narrado com maestria pela autora.

De todos os personagens, os que mais gostei foram Paige (o que merece destaque, pois raramente vou com a cara dos protagonistas), Jaxon, Liss e Nick. Apesar dos Rephaim serem poderosos e descritos como seres belos e austeros, não me vi ligado a nenhum deles, mesmo os que eram "diferentes" (não posso dar detalhes por motivos de spoiler). Cada um dos personagens citados faz parte de um classe diferente de clarividentes, e são todos igualmente poderosos. As partes em que a autora descrevia o uso de seus poderes eram minhas favoritas. Não sei o que pensar de Arcturus, pois em alguns momentos ele parece ser confiável, mas em outros demonstra o mesmo ar de desprezo pelos seres humanos que os demais Rephaim possuem. Ele foi um personagem que dividiu bastante minha opinião.

 Outros são capazes de entrar em planos oníricos inacessíveis aos demais.

A palma da minha mão estava escorregadia. Mesmo depois do que eu fizera com o Subguarda no trem, o crime que me trouxera para cá, eu não tinha ideia se conseguiria fazer aquilo. Se conseguiria tirar mais uma vida. Mas então Kraz afastou as mãos do rosto, e eu soube que ele não tinha mais salvação. Nem hesitei.
Puxei o gatilho.
Pág.: 329

O final do livro foi um pouco corrido e inconclusivo, mas isso já era esperado, afinal, esse é apenas o primeiro livro. Ultimamente estou bem cansado de séries e trilogias e sinto falta de livros únicos, contudo, pelas primeira vez em muito tempo não me importei com esse fato, pois o mundo criado por Samantha Shannon é tão rico e cheio de possibilidades, que seria um desperdício terminar tudo em um livro só. Não vejo a hora de ler a continuação. 

A edição está linda e impecável. A capa é em material semi-soft touch (dá aquela sensação de emborrachamento, mas de uma forma mais leve) com o título em amarelo. Os riscos que saem do símbolo vermelho (feito em verniz localizado) são impressos em tinta dourada, o que dá uma certa sofisticação para a obra. A diagramação conta com um mapa de Sheol I, uma espécie de organograma com todas as espécies de clarividentes e um glossário que eu queria ter visto antes de terminar a leitura, afinal, fiquei perdido com as expressões usadas e só vi que ele existia quando li a última página T_T. Não encontrei erros de revisão ou tradução aparentes. Leitura recomendada para quem gosta de livros que trabalham com outros planos de existência e o éter (plano que nossas almas habitam depois da morte).