A Garota Dinamarquesa - David Ebershoff

Olá Vintagers, como vão?

Não é novidade para ninguém que os movimentos LGBT vêm ganhando força nos últimos anos, com a ajuda da mídia e maior acesso às informações, esse grupo vem sendo mais reconhecido e tendo mais adeptos a cada dia. Os Transexuais é um dos grupos que mais sofrem represálias e preconceitos, porém, como muitos podem pensar, não só de uns anos para cá esse grupo começou a se mostrar. O que muita gente não sabe é que na década de 20 existia um famoso pintor da Dinamarca chamado Einar Wegener, que futuramente, graças à medicina, se tornaria a doce e meiga Lili Elbe. A resenha de hoje vai falar de uma das obras mais completas que eu tive a oportunidade de ler, tanto na estrutura quanto pelo lado sentimental. Vamos lá? 



A Garota Dinamarquesa reconstrói a história de Lily Elbe, talvez a primeira transexual da história a fazer a cirurgia de redesignação sexual (ou “mudança de sexo”). Vivendo até a meia-idade como Einar, um pintor dinamarquês na Europa dos anos 1920 e 1930, ela teve a sorte de contar não apenas com um médico pioneiro, mas com uma mulher brilhante, generosa e apaixonada, sua própria esposa, Greta, para encontrar sua verdadeira identidade. Num momento em que as questões de gênero estão cada vez mais em voga, o aclamado romance de David Ebershoff, que volta às prateleiras com novo projeto gráfico, capa com o pôster do filme e posfácio assinado pelo autor, é um livro delicado e envolvente e uma leitura necessária nos dias atuais.





Resumo

Através de um simples favor - se vestir de mulher para que a esposa finalize uma pintura -  começa a uma das mais lindas histórias de redescobrimento e aceitação. A Garota Dinamarquesa é baseada na biografia Man Into Woman e reconstrói a história de Lili Elbe, que talvez possa ter sido a primeira transexual da história a fazer a cirurgia de mudança de sexo.

Einar, confuso ao se vestir pela primeira vez como mulher.

Vivendo até a meia-idade como Einar, um pintor dinamarquês, ao se vestir pela primeira vez como uma mulher se despertou para um instinto, uma sensação nova que o faz se sentir inseguro e ao mesmo tempo atraído por essa nova versão de si mesmo. À medida que ele começa a se transformar em Lili, o pintor vai ficando nas lembranças e, junto com Greta (sua esposa), percebe que uma escolha deverá ser feita: Lili ou Einar. Tendo como pano de fundo a Europa da década de 20, A Garota Dinamarquesa retrata o amor entre um homem que descobre sua verdadeira sexualidade e uma mulher capaz de sacrificar seu casamento por ele.

Opinião

Tratando de um caso que se passa por volta de 1900-1920, onde o tema Transexualidade não era algo comum e não tão facilmente aceitado, já aviso de antemão: Para quem pensa que, por se tratar de uma história sobre mudança de sexualidade vai encontrar no decorrer da obra uma crítica ao preconceito, vai ficar um pouco desapontado, pois A Garota Dinamarquesa não tem a proposta de fazer uma crítica à atitude de terceiros, mas sim contar de forma sutil e muitíssimo bela a gradativa mudança de um jovem pintor que nunca se sentiu conectado ao mundo por ser diferente.
Nosso personagem principal, Einar, é um pintor introspectivo e sempre muito inseguro, ele é descrito como um homem fora dos padrões por ser muito franzino e tímido, porém, de um coração enorme. Desde criança ele era diferente, se encantava com garotos da sua idade, pelas roupas e joias de sua mãe. No livro, o protagonista cita Lili como se fosse uma pessoa diferente dentro dele, pronta para se libertar, ela tinha suas próprias vontades, seus desejos ocultos e quando ele se transformava em Lili, seus trejeitos e voz se tornavam outros. É uma linda metáfora, como se Einar fosse uma lagarta dentro de um casulo que precisava se transformar na borboleta Lili.

Einar sente-se como se saísse de seu corpo e desse lugar a Lili. 

Só conseguia se concentrar naquela seda que envolvia a sua pele como se fosse uma bandagem. Sim, foi essa a sensação que ele teve naquela primeira vez: a seda era tão fina e arejada que parecia uma gaze – uma gaze encharcada de bálsamo, e que jazia delicadamente sobre a pele em tratamento. Até o constrangimento de posar diante de sua esposa perdeu importância, pois ela estava ocupada, pintando com uma intensidade absorta no rosto. Einar começou a penetrar num mundo sombrio dos sonhos, onde o vestido de Anna podia pertencer a qualquer um, até a ele. 
Pág.: 21

Mas tanto Lili quanto Einar não seriam nada sem uma pessoa incrível e compreensiva, que fez de tudo para que ambos fossem pessoas felizes, até abdicar da pessoa que ama pelo bem dela mesma. Essa pessoa se chama Greta, a esposa de Einar. Ela é um personagem que se revela um ser humano maravilhoso ao apoiar e acompanhar toda a transformação do marido, sua força mesclada à fragilidade são características que tornam Greta a minha personagem predileta. Ela reflete todas as mulheres fortes, determinadas e donas de seu próprio destino. Como personagens secundários temos: Hans, o melhor amigo de Einar, Anna, que é amiga de Greta e uma das primeiras a conhecer Lili, e Carlisle, irmão gêmeo da esposa.

A doce e determinada Greta.

A linguagem da obra é absolutamente bela e o estilo de escrita de David Ebershoff é suave e repleto de palavras bonitas. É impossível não se sentir situado na história, pois o autor descreve cada detalhe com muita minúcia, desde o modo como os personagens se vestem até o aroma da brisa de inverno. A diagramação também é muito bonita e a capa nos mostra o cartaz do filme.



Einar Wegener nasceu num pântano. Foi uma menininha nascida como menino num pântano. Ele jamais contara isso a alguém, mas tinha como primeira lembrança a luz do sol entrevista pelos ilhoses do vestido de solstício de verão da avó. Lembrava-se das mangas bufantes com os buracos dos ilhoses estendendo-se em direção ao berço para pegá-lo, e lembrava-se de ter pensado – não, pensado não, sentido – que aquele ilhós branco de verão o cercaria para sempre, como se fosse um elemento necessário entre água, luz e calor.
Pág.: 228

Por fim, nunca se foi tão pertinente tratar o tema da transexualidade como atualmente. Todos os dias vemos notícias “pipocando” na mídia, como a história de Bruce Jenner (atualmente Caitlyn Jenner) que se transformou recentemente. Em virtude disso, é claro que os produtores não poderiam deixar de lançar o filme da Garota Dinamarquesa. Tive a oportunidade de ir conferir a adaptação nos cinemas, que lançou esse mês aqui no Brasil, e adorei, apesar de ter vários pontos bem diferentes do livro (isso já era esperado, mas algumas mudança me deixaram incomodada), mas não deixou de ser uma adaptação lindíssima. Muito se deve aos atores que conseguiram, com êxito, dar vida aos personagens, principalmente a atriz Alicia Vikander, que interpretou Greta (que no filme se chama Gerda), fazendo uma atuação impecável, o que a colocou na concorrência do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme.

 Trailer

Recomendo essa maravilhosa obra a todos, pois ela reflete a mais pura história de amor, um amor que pode quebrar paradigmas, transcender gêneros e orientação sexual, e Lili é um parte importante da vitória na luta pela aceitação. Precisamos nos orgulhar dela e de Greta, e suas vidas precisam ser lembradas e contadas com respeito. A Garota Dinamarquesa vai te encantar, emocionar e nos mostrar que não existem barreiras nem ninguém capaz de lutar contra o amor verdadeiro.

Rock kisses e até a próxima!