República de Ladrões - Scott Lynch

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

O grande diferencial presente nos livros da série Nobres Vigaristas é a forma inusitada e envolvente que Scott Lynch narra os acontecimentos. Em República de Ladrões, além de darmos continuidade às aventuras de Locke Lamora, passamos a conhecer mais o grandioso e incrível universo criado pelo autor. Apesar disso, este livro não consegue, até o momento, assumir o posto de melhor da saga, mas chega a surpreender os leitores que já estão familiarizados com as histórias. 


Envenenado e à beira da morte, Locke Lamora segue para o norte com seu parceiro, Jean Tannen, em busca de refúgio e de um alquimista para curá-lo. Porém, a verdade é que ninguém pode salvá-lo. Com a sorte, o dinheiro e a esperança esgotados, os Nobres Vigaristas recebem uma oferta de seus arquirrivais, os Magos-Servidores.
As eleições do conselho dos magos se aproximam e as facções precisam de alguém para fazer o trabalho sujo, manipulando votos. Se Locke aceitar, o veneno será purgado de seu corpo com o uso de magia – mas o processo será tão excruciante que ele vai desejar morrer.
Locke acaba cedendo ao saber que o partido da oposição contará com uma mulher do seu passado: Sabeta Belacoros, a única pessoa capaz de se igualar a ele nas habilidades criminosas e mandar em seu coração. Novamente em uma disputa para ver quem é o mais inteligente, Locke precisa se decidir entre enfrentar Sabeta ou cortejá-la, e a vida dos dois pode depender dessa decisão.


Desde o desfecho de Mares de Sangue, já se passaram seis semanas. Sem esperanças de cura, mesmo com as tentativas de Jean, Locke Lamora se encontra à beira da morte devido ao veneno injetado em seu corpo. Em troca de seus serviços, os Magos-Servidores, comandados pela Arquidama Paciência, oferecem a cura. Desta forma, Locke e Jean seguem para Kartane, onde terão que colocar suas peculiares habilidades em prática e intervir em uma eleição disputada por dois partidos, o Raízes Profundas e o Íris Negra. Entretanto, as coisas não serão tão fáceis, visto que o partido rival também apostou nos serviços de uma pessoa, a habilidosa Sabeta Belacoros, antiga paixão de Locke. 

Arte presente na capa da edição francesa

Tudo o que era errado chegou ao ápice ao mesmo tempo: os gritos de Locke, a vertigem incapacitante de Jean e as chamas pretas das velas, enchendo a cabine com sua medonha não luz de água de sepultura.
Pág.: 146

A narrativa presente nos livros da saga Nobres Vigaristas é um dos pontos que mais se destaca em meio a tantas outras qualidades. Em República de Ladrões as circunstâncias não seriam diferentes e Scott Lynch surpreende novamente os leitores com seus diálogos consistentes, sua história e o mundo onde está inserida. Apesar de não trazer nenhuma inovação na técnica, a sua investida em uma narrativa que intercala entre o passado e o presente do grupo é um dos aspectos que marca seu estilo e, talvez, o que mais funciona dentro da trama, como acontece também nos volumes anteriores. Desta maneira, o foco destes interlúdios são os treinamentos dados pelo Padre Correntes a Locke e, principalmente, ao complicado relacionamento entre ele e Sabeta. O mais interessante dessas partes já transcorridas é a volta de alguns personagens que, em algum momento da história, já morreram, além de serem essenciais para compreender os motivos que levaram Sabeta a abandonar o grupo. 

Apesar disso, este é o livro que menos contém cenas de ação e planos mirabolantes por parte dos protagonistas. Assim como nos outros volumes, os personagens criados por Scott são bem construídos e donos de características que os tornam únicos. Isso fica mais visível quando analisamos a personalidade de Sabeta: independente, forte, segura de si e destemida, características estas que divergem quando a comparamos com outras figuras femininas presentes em outros livros, em sua maioria, "mocinhas indefesas". Por sua vez, os gêmeos Calo e Galdo Sanza, presentes nos interlúdios, serviram de alívio cômico em meio a uma trama cheia de jogos políticos. 

Capa estadunidense de The Thorn of Emberlain

De novo Locke viu o funcionamento curioso das artes dos Magos-Servidores, à medida que os preconceitos entranhados dos kartanis guerreavam com seu condicionamento para enxergá-lo como algum tipo de cruzamento entre um chefe de espiões e um profeta. Era algo por trás dos olhos deles e, apesar de parecer que a coisa pendia para o seu lado, ele achou melhor colocar um pouco de doçura, para dar mais garantia.
Pág.: 366

Scott Lynch é especialista em criar desfechos envolventes, instigando os leitores a lerem os próximos volumes. Desta forma, a trama presente neste livro conseguiu me deixar ansioso para  The Thorn of Emberlain, ainda sem previsão de lançamento aqui no Brasil. Apesar de não ser o melhor até o momento, República de Ladrões foi uma ótima leitura, até mesmo pelo fato de rever velhos e saudosos personagens. Minha recomendação não fica restrita somente a este livro, mas também aos volumes anteriores. 

A diagramação segue o mesmo estilo dos demais livros da série. Desta forma, contamos com um tamanho de fonte pequeno, mas um agradável espaçamento entre linhas. Já na edição, temos páginas amareladas, um mapa de Kartane no início do livro, título com verniz localizado na capa, que, como de costume, traduz adequadamente a essência da trama. Não encontrei erros de revisão.