O Substituto - Philippa Gregory

Hey pessoal, tudo bem?

O Substituto é um livro que me dividiu bastante. Por um lado, temos uma narrativa envolvente, uma ambientação histórica muito bem feita e personagens cativantes. Por outro, a autora pecou em vários momentos, tanto na elaboração dos diálogos, quanto no tamanho da história em si, misturando fatos e acontecimentos que poderiam claramente acontecer em volumes separados. Nem sempre é bom ir com muita sede ao pote.





Dotado de beleza e inteligência fora do comum, Luca Vero foi visto com desconfiança durante toda a vida... até que o jovem é acusado de heresia. Para escapar da fogueira, aceita se tornar membro de uma Ordem misteriosa cujo objetivo é investigar estranhos relatos que assombram o mundo cristão. Para vencer seus inimigos, Luca se une a uma aliada improvável – Isolde, de 17 anos, fora aprisionada como abadessa de um convento cujas freiras sofrem constantes ataques de histeria. Além disso, os dois precisam combater a crescente atração que sentem um pelo outro. Ou podem acabar num inferno jamais imaginado.







Luca é um jovem muito belo, o que sempre fez com que a população o olhasse com desconfiança, pois acreditavam que ele era descendentes de fadas. Após ser acusado de heresia, ele começa  trabalhar para uma Ordem secreta sob comando direto do Papa, que tem por objetivo investigar os acontecimento que levarão ao juízo final. Não  muito longe dali, Isolde sofre com a morte do pai e com o fato do irmão estar obrigando-a a mudar-se para a abadia da região e fazer os votos das freiras. Contudo, coisas estranhas começam a acontecer naquele lugar, o que faz com que os caminhos de Luca e Isolde se cruzem. 

O parágrafo acima resume a primeira metade da história, e é aí que os problemas começam. A autora optou por, ao finalizar a Inquisição da abadia e determinar parte do destino dos personagens, incluir  no mesmo volume um novo caso a ser investigado por Luca e seus companheiros de Ordem. O resultado? Ambas as histórias não foram exploradas em seu potencial máximo, pois acabaram dividindo o livro em dois arcos relativamente pouco trabalhados. Também não gostei da divisão de capítulos do livro, e o que ocorreu nesse volume foi algo sério. Por mais que exista um espaçamento indicando que o narrador da história mudou, ou que se passou algum tempo entre alguns acontecimentos e outros, os capítulos são GIGANTES, tendo um deles mais ou menos 155 páginas.

Abadia

- Vou dormir. Rezo a Deus para que não sonhe. 
- Não sonhará - garantiu o irmão Peter. - Ele o escolheu bem. Você tem nervos para suportar tudo isso, e coragem para se arriscar. Logo aprenderá a sabedoria de julgar com mais cautela. 
- E então?
- Então ele o enviará às fronteiras da cristandade, onde hereges e demônios agrupam-se para travar uma guerra contra nós, e não há boas pessoas.
Pág.: 156

Outro fator que me incomodou durante a leitura foram as repetições durante os diálogos. Em vários momentos temos reiterações de conceitos, títulos e fatos que já foram trabalhados no começo do livro, ou até mesmo algumas páginas antes. É muito comum em quase todos os diálogos nos depararmos com Luca dizendo que é o Inquisidor, que estava ali em nome do Santo Padre, que a Inquisição era dele, etc. O que me leva a pensar na famosa frase de Tywin Lannister: "Qualquer homem que precise dizer a frase Eu sou o Rei não é um Rei de verdade", e é exatamente isso que acontece na obra. As reafirmações de Luca do próprio status ou a quem está servindo, retiram sua credibilidade perante o leitor, fazendo-o parecer apenas um jovem tolo. 

Entretanto, o livro também apresenta inúmeras qualidades, e dentre elas temos a narrativa propriamente dita e ambientação construída pela autora. Sim, acima eu critiquei os diálogos, mas somente quanto a repetições, fora isso a narrativa é simplesmente perfeita e cativante. Philippa conseguiu me prender do começo ao fim com sua forma de escrever, o que é uma qualidade e tanto, senão os leitores iriam começar a largar a leitura assim que o primeiro arco terminasse. A ambientação também é excelente, pois a autora conseguiu transmitir bem os aspectos físicos e políticos do Século XV, com a Inquisição e os medos da Igreja quanto ao desconhecido, tornando a leitura não só prazerosa, como também uma fonte de aprendizado quanto a certos aspectos não ficcionais. 

Inquisição

Os finais (sim, no plural, pois como fora dito inúmeras vezes, a história se divide em dois arcos, mesmo que a autora não o faça expressamente) foram relativamente satisfatórios. O primeiro, relacionado ao caso da abadia, ainda deixou algumas pontas soltas, mas penso que irão ser atadas no segundo volume. Já o segundo teve um final conclusivo, provando mais uma vez que no século XV o maior perigo enfrentado pelo homem era a ignorância.  

A edição está muito bem feita, com páginas amareladas e uma fonte e espaçamentos medianos. A capa é linda, representando o que eu deduzo ser Isolde, e um título em dourado com arabescos. Contudo, tenho como ressalva a divisão de capítulos, como fora dito mais acima, e o fato de que não consegui relacionar o título da obra à história. Tudo bem que pode ser referência ao fato de Luca teoricamente ser uma criança trocada e descendente de fadas, mas não é um fato comprovado, tratando-se então de mera especulação. Recomendo que cada um leia para tirar as próprias conclusões.