Rastros na Neblina - Benjamin Black

Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Há bastante tempo que não leio um romance policial e confesso que, depois de várias histórias de Fantasia, senti saudades daquele clima investigativo. Desta maneira, fui atraído pela sinopse de Rastros na Neblina, um livro que não me decepcionou, pois conta com uma grande história. Sem falar que a forma como autor foi conduzindo e atribuindo propriedades a sua trama foi encantadora, superando todas as minhas expectativas.




O rastro de April Latimer parece ter sumido na névoa de Dublin. Quando Phoebe Griffin, filha de Quirke, não consegue saber notícias da amiga, pede ajuda ao patologista para descobrir o que aconteceu. A influente e tradicional família de April não dá a mínina para o desaparecimento dela, talvez motivada pelo temor de um escândalo: a jovem médica sempre teve fama de rebelde e morava sozinha num apartamento frequentado por muitos homens. Com o auxílio profissional do inspetor Hacket, presença habitual na série, a dupla de detetives amadores começa uma investigação quase sem evidências, mas cujo desenrolar terá uma conclusão trágica e chocante.






A obra conta a história de Phoebe Griffin, uma mulher angustiada pelo seu passado e que, após algum tempo, voltou a se relacionar com seu pai, Garret Quirke, um homem recém-saído de uma clínica de reabilitação e que a ajuda a desvendar o misterioso desaparecimento de sua amiga, April, uma garota sem limites, sem regras e que havia se desapegado de sua proeminente família. No meio dos acontecimentos, muitos mistérios e questionamentos acerca da jovem desaparecida irão surgir, levando Phoebe e Quirke a se aproximarem da família da moça para conseguir algumas respostas. 

"A certeza é fatal. O que me encanta é a incerteza. A neblina torna as coisas maravilhosas." - Oscar Wilde

[...] Imagens do passado pululavam em sua mente, bruxuleando como em um antigo cine-jornal. Um carro num promontório nevado e um jovem com uma faca. Um velho, mudo e furioso, deitado numa cama estreita entre duas janelas altas. Uma figura de cabelos prateados empalada, ainda se contorcendo, em grades pretas. Ela teria de se sentar, mas onde, no quê? Qualquer coisa em que recostasse seu peso podia se abrir e liberar horrores. Parecia-lhe que suas entranhas se liquefaziam e de repente teve uma dor de cabeça penetrante, parecia estar fitando uma névoa vermelha e impenetrável.
Pág.: 31

Aos que não sabem, Benjamin Black é o pseudônimo do romancista irlandês John Banville, e este livro é o terceiro da série Quirke. É inegável dizer que esta obra tem um grande potencial, visto que sua maior distinção não está somente na história, mas também na forma como ela foi escrita. As descrições de cenários feitas pelo autor conseguem reproduzir no imaginário do leitor a Dublin e o  rigoroso inverno em que a trama está inserida, sem mencionar que ele consegue desenvolver uma atmosfera pesada e sombria envolvendo o misterioso desaparecimento da jovem April. Além disso, os diálogos, e até mesmo a narração em terceira pessoa, são bem elaborados e conseguem reproduzir os sentimentos e sensações dos personagens ali envolvidos.

Confesso que achei a premissa da história bem simples, basicamente o que já vimos em outros livros do gênero, mas o que diferencia este dos demais são as características que Benjamin atribuiu a sua trama, que como já dito, está recheada de mistério e suspense. Os personagens tem personalidades próprias e diferentes, como por exemplo a família da April, os Latimer, na qual podemos perceber que sua mãe é descontrolada, e que seu irmão tem um passado misterioso, o que o deixa seco e "sem vida". Por sua vez, Quirke é um patologista que a meu ver sofre de dipsomania*, e o autor evidenciou isso no enredo, visto que ele fica dividido entre a sua vontade de ingerir bebidas alcoólicas ou ficar lúcido.

Benjamin Black/John Banville

Naturalmente seus pensamentos se voltaram para April, como sempre acontecia em horas insones como esta, embora Phoebe pensasse nela também durante o dia. Era estranha a sensação de impotência que tinha com relação à amiga. Na realidade, parecia estar num sonho, um sonho, em que havia algo de muita importância a ser feito - um aviso a ser dado, um segredo revelado - entretanto, todos os outros estavam relaxados e indiferentes, e não havia ninguém que se incomodasse em ouvir a notícia horrenda de que só Phoebe tinha posse.
Pág.: 156/157

A relação do título com o encerramento da obra foi simplesmente genial. Não irei contá-lo, mas posso afirmar que alguns pontos da trama não foram totalmente solucionados, mas acredito que esta era a real intenção do autor. Apesar do livro ser o terceiro volume de uma série, sua leitura na ordem de publicação não é obrigatória, pois este volume possui início, meio e fim. Leitura recomendada!

A diagramação está simples, com um ótimo espaçamento entre linhas e um tamanho de fonte agradável. Já na edição, temos páginas amareladas e uma bela capa. O livro é divido em duas partes principais, que se subdividem em vários capítulos. A tradução foi feita por Ryta Vinagre e a revisão está impecável.

*Propensão mórbida ao uso de bebidas alcoólicas

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