Mares de Sangue - Scott Lynch


Saudações, caros leitores, como vocês estão?

Com seu jeito diferenciado de narrar, Scott Lynch coloca novamente seus leitores diante das situações mais inesperadas e inóspitas possíveis, mostrando que o mundo do crime em Tal Verrar consegue ser, em todos os sentidos, mais cruel comparado às aventuras e crimes cometidos pelos Nobres Vigaristas em Camorr, cidade onde se passa a trama de As Mentiras de Locke Lamora (resenha aqui).

Após uma batalha brutal no submundo do crime, o golpista Locke Lamora e seu fiel companheiro, Jean Tannen, fogem de sua cidade natal e desembarcam na exótica Tal Verrar para se recuperar das perdas e feridas. Porém, mesmo no extremo ocidental da civilização, não conseguem descansar por muito tempo e logo estão de volta ao que fazem de melhor: roubar dos ricos e embolsar o dinheiro.
Desta vez, eles têm como alvo o maior dos prêmios, a Agulha do Pecado, a mais exclusiva casa de jogos do mundo, onde a regra de ouro é punir com a morte qualquer um que tente trapacear. É o tipo de desafio a que Locke não consegue resistir... só que o crime perfeito terá que esperar.
Antigos rivais dos Nobres Vigaristas revelam o plano a Stragos, o ambicioso líder militar verrari, que resolve manipulá-los em favor de seus próprios interesses. Em pouco tempo, a dupla se vê envolvida com o mundo da pirataria, um trabalho inusitado para ladrões que mal sabem diferenciar a proa da popa de um navio.
Em Mares de sangue, Locke e Jean terão que se mostrar malabaristas de mentiras, enganando todos ao seu redor sem a mínima falha, para que consigam sair vivos. Mas até mesmo isso pode não ser o bastante...

Exaustos pelos acontecimentos em Camorr, os Nobres Vigaristas partem rumo a Tal Verrar, cidade onde está localizado o mais novo alvo do grupo, o Agulha do Pecado, um singular cassino. Investindo o tempo de dois anos para a elaboração e preparação do plano, o grupo é descoberto pelo líder militar Maximilian Stragos, que passa a usá-los, uma vez que deseja a todo custo restaurar sua autoridade, além de querer por em prática um arriscado plano envolvendo sua marinha. Dessa forma, o bando de trapaceiros acaba se aventurando no mundo dos piratas, sem ao menos terem conhecimentos de como comandar uma navegação. 

Nem sempre o mar está de bom humor.

- Não tenho muitos oficiais de cabelo claros, mas o uniforme lhe serve bem. Mandarei fazer mais dois até o fim da semana. - O Arconte estendeu a mão e ajeitou alguns detalhes: apertou o lenço de pescoço, mudou a posição da bainha vazia presa ao cinto. - Você vai usá-lo algumas horas por dia. Acostume-se com ele. Um dos meus Olhos vai lhe dar instruções sobre postura, cortesias e saudações.
Pág.: 210

Algo que me assusta nos livros de Scott Lynch é a sua dinâmica em trabalhar vários assuntos ao mesmo tempo. Ao contrário do primeiro volume, em Mares de Sangue ele deu um maior destaque às questões políticas de Tal Verrar, como as trocas de poderes, a corrupção e a distribuição de riquezas. Esse fato chega até ser interessante, vez que um dos primeiros receios que tive antes de iniciar a leitura era a falta de originalidade, a ausência de uma identidade própria, o que de fato não aconteceu na obra. O envolvimento dos Nobres Vigaristas com os piratas chega a ser uma parte incômoda, vez que alguns personagens não são nem um pouco agradáveis, mas ela é essencial para desdobramento da história.

Scott conseguiu manter quase todos os aspectos narrativos do primeiro livro, mudando pouca coisa neste. A trama ainda é narrada em terceira pessoa, mas a intercalação entre passado e presente é interrompida na metade da obra. Nas inúmeras reviravoltas, traições, e até mesmo pelo contexto violento da história, fica perceptível o amadurecimento de Locke Lamora.

Autor

Jean sentia a vez, percebendo de algum modo que a impressão de som era apenas um truque que ele fazia consigo mesmo, um eco nos ouvidos. Sentia aquilo como uma intromissão na consciência, como um roçar de patas de insetos contra a pele. Enxugou a testa de novo e percebeu que estava suando demais até para uma noite quente como aquela.
Pág.: 365

Mares de Sangue é uma ótima leitura, uma vez que ela conta com elementos fantásticos e envolventes, o que o faz esquecer das suas 512 páginas. Apesar das histórias contarem com um final, recomendo ler o primeiro volume, já que neste pude perceber referências e até mesmo personagens que aparecem em As Mentiras de Locke Lamora. O terceiro livro se chama The Republic of Thieves, algo como República de Ladrões, e está ainda sem previsão de lançamento.

A diagramação está idêntica ao do primeiro livro e simples, contando com fontes pequenas e um agradável espaçamento entre linhas. Já na edição temos páginas amareladas e títulos com verniz localizado na capa, que por sinal, ilustra adequadamente o contexto da trama. Leitura recomendada!