A Noite Devorou o Mundo - Pit Agarmen


Olá pessoal, tudo bem com vocês?

A Noite Devorou o Mundo é uma obra escrita por Pit Agarmen, que na realidade é um pseudônimo que o autor Martin Page resolveu usar para lançar uma obra que fugia um pouco ao seu padrão de publicação. Em uma entrevista, li que o objetivo dele era chegar até as pessoas que gostam de romances de gênero com um livro profundo, filosófico e ao mesmo tempo de entretenimento, ele também falou um pouco de onde tira as idéias para seus livros, confira: “Minhas ideias vêm dessa merda toda que surge em minha vida, na vida de meus amigos e de suas famílias. E de minha força vívida para superar a tragédia e sobreviver.” Essas características estão presentes nessa obra e o resultado é inovador e muito interessante.





Neste inusitado romance de terror e de zumbis, o francês Martin Page, autor do bestseller Como me tornei estúpido, faz uma fábula sobre a sociedade de consumo, sob o pseudônimo de Pit Agarmen. No livro, uma epidemia assola o planeta e transforma os humanos em seres demoníacos, selvagens e cruéis. Antoine Verney é um sobrevivente, mas não tem nada de herói. Como um Robinson Crusoé moderno, ele tem que aprender a sobreviver e a enfrentar a solidão.







O livro conta a história de um escritor pouco sociável que após algumas tentativas frustradas de interação durante uma festa na casa de sua amiga decide se refugiar na biblioteca com uma garrafa de uísque nos braços e acaba bebendo até pegar no sono. Quando desperta, se depara com o cenário de um massacre, há sangue por todos os cantos da sala e um corpo sem cabeça jaze no chão. Desesperado, tranca a porta do apartamento e se dirige à sacada, onde percebe que um cenário caótico tomou conta da cidade, homens correndo atrás de homens, mordendo, mutilando e fazendo jorrar sangue por todos os lados enquanto alguns policias tentam, sem sucesso, abatê-los. Apavorado, ele decide que suas melhores chances de sobrevivência estão em um confinamento por tempo indeterminado, e assim passa a recolher utensílios e suprimentos úteis para a sobrevivência e a vasculhar e reforçar o prédio até bloquear todas as possíveis entradas, fazendo daquele local seu forte contra os invasores que desejam lhe arrancar a carne.

Será que estamos nos tornando zumbis em nossa busca desenfreada para saciar nossos anseios?
"Os zumbis chegaram no momento certo. Era hora de eles entrarem em cena. Vêm terminar a destruição da humanidade que havíamos começado com as guerras, com o desmatamento, com a poluição, com os genocídios. Eles realizaram nosso mais profundo desejo. Nossa própria destruição é presente que pedimos a Papai Noel desde o nascimento da civilização. Finalmente fomos atendidos."
Pág. 86

Por se tratar de um livro que tem zumbis como tema, a primeira ideia que nos vem à mente é uma história regada por sangue e cenas de ação eletrizantes, contudo, não é exatamente isso que encontramos em A Noite Devorou o Mundo. O enredo é basicamente uma crítica à sociedade, no qual o autor alega que não somos muito diferentes dos zumbis, enquanto eles tem fome por carne, nós mostramos a mesma gula durante nossa busca por dinheiro, sexo e poder, sem nos importarmos com o que precisamos destruir para alcançar nossos objetivos; nos tornamos tão cegos como essas odiosas criaturas. A forma como a ideia de que estamos sendo avisados aos poucos da possibilidade da natureza enviar uma catástrofe capaz de eliminar a raça humana é fixada na mente do leitor e faz com que ele pense no enredo como algo possível de ocorrer algum dia. Uma passagem do conto cita a famosa frase de Oscar Wilde - “A natureza imita a arte” -; não estamos livres de sermos aniquilados por versões monstruosas de nós mesmos, eu acredito piamente na teoria de que zumbis venham a existir daqui alguns séculos HaHaHa.

O protagonista é a idealização da teoria de que os solitários ou egoístas tem maiores chances de sobrevivência por não se arriscarem na missão de salvar a vida de outras pessoas. Por estar acostumado a viver de forma solitária, ele se sente mais do que preparado para sobreviver à catástrofe, contudo, a falta de interação social torna-se um desafio considerável até mesmo para os acostumados a levar uma vida de solidão, por isso o personagem começa a apresentar traços de esquizofrenia, suas atitudes tornam-se mais insanas e interessantes e as críticas à sociedade passam a ser cada vez mais ácidas.

Pit Agarmen / Martin Page
"Sempre soube que as pessoas eram monstros. O fato de hoje serem zumbis é apenas uma confirmação. A metáfora encarnou-se. Estou decidido a não me dar facilmente por vencido."
Pág. 157

Já que estou acostumada com histórias em que zumbis são um pouco mais vorazes do que os que encontrei nessa obra e com isso acabei achando alguns pontos fracos na narrativa, como a adaptação rápida do personagem a seu novo lar e com o quanto os mortos-vivos se mostram fracos, mesmo estando em grande quantidade, mas então percebi que walkers* são apenas um pano de fundo para uma metáfora que seria desenvolvida a partir deles. Durante a leitura somos instigados a questionar e compreender as críticas feitas à sociedade e ao modo de vida que levamos. O que torna o enredo interessante definitivamente é o humor ácido do autor ao abordar a teoria de que nós estamos nos aproximando a passadas largas da nossa ruínam enquanto nos denominamos superiores com nossas tecnologias e ciência. Esta obra é regada de ironias e temas polêmicos.

A capa é simples e apesar de não considerá-la muito bonita posso dizer que possui certo charme, o título é em verniz localizado. A tradução feita por Carlos Nougué está impecável e não encontrei nenhum erro de revisão, a diagramação é simples e a história é dividida de forma que lembre um diário, por isso os curtos capítulos são separados por datas ao invés de enumeração. Apesar de não possuir nenhum elemento capaz de comover o leitor, é um livro gostoso de ler e chegamos a seu final com a cabeça cheia de teorias. Recomendo a leitura.

*Termo usado principalmente por alguns fãs do seriado The Walking Dead para definir zumbi.

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Abraços,
  Tamires Souza
TAMIRES DE SOUZA
É Resenhista aqui no Vida De Leitor. Desenvolveu sua paixão pela leitura ainda criança através de revistas em quadrinhos e desde então não vive sem um livro dentro da bolsa. Recém formada e sonha um dia cursar uma faculdade de Direito. Seus livros favoritos são: Série Rangers Ordem dos Arqueiros, A Seleção e a Série A Mediadora
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