Uma pequena discussão sem fim.


Diariamente vejo leitores reclamando dos preços dos livros de autores nacionais, usando como comparativo o preço de livros de autores estrangeiros. E realmente, o preço de um livro nacional está na média de uns R$ 35 reais, enquanto muitos livros estrangeiros estão com preços abaixo desse valor.

Repetidamente vejo autores nacionais argumentarem que a causa disso é o desinteresse das editoras em publicar livros de autores nacionais. E que quando publicam, a tiragem é muito baixa, o que justificaria o alto valor do livro.

E ainda vejo editoras se defendendo, com a tese de que o problema é o leitor brasileiro, que não valoriza a literatura nacional, obrigando as editoras a publicarem livros com tiragens baixas, pois elas não querem correr o risco de investir em algo que não atrai os consumidores (leitores).

Todas as partes têm lá a sua razão, afinal todos olham a situação pelo ângulo que lhes convém. Mas a minha opinião sobre o assunto pode (e vai) desagradar muita gente, principalmente os autores brasileiros.

É muito fácil dizer que a culpa é do leitor brasileiro, que prefere sempre o que vem de fora, preterindo o que é daqui. Muito fácil mesmo, ainda mais quando você é um autor e pretende vender o seu livro.

Você, autor, que escreve um livro ambientado na Inglaterra. Você, autor, que escreve um livro e prefere criar um mundo, com mapas e idiomas próprios. Você, autor, que nomeia seus personagens com nomes estrangeiros.

O Brasil tem uma vasta riqueza de territórios, culturas e cenários. Mas pouco são os autores nacionais que preferem falar sobre nossa terra. Pouquíssimos são os autores que preferem ambientar sua narrativa em sua cidade e usar elementos de nosso folclore como personagens.

Escrevem sobre um fato que aconteceu na antiga Europa e depois vêm reclamar que o leitor brasileiro não incentiva a literatura NACIONAL.

Vamos aos fatos:

 “1808” de Laurentino Gomes já vendeu mais de 600 mil exemplares no Brasil, sendo 200 mil deles em apenas quatro meses após seu lançamento. Já o livro “1822”, do mesmo autor, vendeu a primeira tiragem (100 mil) em apenas três dias.¹


“Os Sete” de André Vianco está em mais de 8500 estantes no site de relacionamentos Skoob.²

O que esses dois autores têm em comum? Laurentino Gomes faz uma análise bem humorada de fatos da História do Brasil. André Vianco escreve sobre vampiros no Brasil.

E esse fato não ocorre só na literatura nacional. Vamos pegar o cinema. Quando o filme nacional é legitimamente nacional, ele faz sucesso sim senhor. Agora se é uma cópia descarada de algum filme “hollywoodiano”, ele já nasce fadado ao insucesso. Central do Brasil, Cidade de Deus, O Auto da Compadecida, Carandiru, Tropa de Elite. Alguns exemplos de filmes que retratam a nossa cultura, a nossa sociedade e o nosso dia-a-dia e que foram (ou ainda são) sucesso entre os telespectadores brasileiros.

Voltando aos livros, temos o fato de que uma editora cobra 15 mil reais para lançar um livro (para 1500 exemplares). Qualquer um que tenha essa grana pode publicar seu livro. Isso significa que ele é bom? Temos o exemplo de uma editora nova que publicou dois livros de uma jovem autora. Dois livros, duas porcarias, com todo o respeito. Duas porcarias completas de erros ortográficos. Um deles é hilário: sabe o filho mais novo de uma família? O caçula? Para essa jovem autora, ele é o casula.

Mas Bruno, as editoras que lançam esses livros não investem em divulgação porque os leitores brasileiros preferem os estrangeiros. Detesto admitir. Mas vocês têm razão nesse ponto. Mas também, se as editoras investissem pesado na divulgação, esse custo estaria embutido no preço final do livro.

Mas vamos separar o joio do trigo? Existem Editoras e Prestadoras de Serviço. As Editoras são aquelas que compram o direito de publicação de um livro, publicam o livro e divulgam o livro, pois elas necessitam vender o maior número de cópias daquele livro, para que os valores pagos na aquisição dos direitos da obra voltem para os bolsos da editora. As Prestadoras de Serviço são aquelas que cobram um certo valor do autor para que esse possa publicar seu livro. E aí a situação se inverte. Quem precisa divulgar o livro é o autor. A Prestadora de Serviço já “prestou o seu serviço” e está com o dinheiro no cofre. Agora quem precisa correr atrás do prejuízo é o nosso amigo autor.

Voltando à parte em que comento que grande parte dos autores prefere “importar” seus personagens e seus cenários deixo uma pequena questão para vocês:

Quem não gostaria de ler uma boa história ambientada na sua cidade? Quem não gostaria de reconhecer um local ao ler determinada passagem de um livro? Sabe quem fez isso e deu certo? O Carlos Saldanha, criador da animação RIO, mas com um pequeno detalhe: todo o investimento foi estrangeiro.

Maurício de Souza, o quadrinista, criador da Turma da Mônica fez (e faz) um sucesso enorme com suas histórias em quadrinhos. E sobre o que se trata a Turma da Mônica? Sobre a sua filha e seus amiguinhos. Sobre seu cachorro. Sobre a sua cidade.

Claro que isso não é uma regra. O autor tem toda a liberdade para escrever sobre o que lhe convir. 

Claro que nem todo autor nacional é bom, assim como nem todo autor estrangeiro é bom. Temos autores nacionais excelentes, assim como temos aqueles que são ruins. E tudo não passa de uma questão de gosto.

Claro que todos tem suas razões. Sei que existem muitas pessoas que desprestigiam o autor nacional, assim como tem muitos que o incentivam. Sei que existem editoras (vejam bem, eu disse editoras) que não aceitam os originais de um autor nacional, mesmo ele sendo bom. Assim como existem algumas editoras que aceitam, mesmo ele sendo ruim. 

Pagar R$ 40 em um livro é caro? Sim, é caro.
Pagar R$ 15.000 para publicar um livro é caro? Sim, é caro.
Pagar R$ 1.000 para divulgar um livro é caro? Sim, é caro.


Encerro esse post com dois pedidos:
1 – Autores nacionais, olhem mais ao seu redor quando forem escrever o próximo livro.
2 – Leitores brasileiros, valorizem mais o que é nosso, o que é da nossa cultura, valorizem nossos autores, prestigiem os eventos nacionais.

Se você possui skype e gostaria de participar de uma discussão sobre esse tema com blogueiros e autores nacionais, envie um e-mail para contato@vidadeleitor.com com seu nome de usuário do skype.

Ps: Antes de me crucificar, procure lembrar de que essa é somente a minha opinião, e que graças à Deus, todos têm o direito de tê-las.

Ps 2: Não adianta insistirem, pois eu não vou revelar quem são as editoras, prestadoras de serviço ou a jovem autora que escreveu "casula" em seu livro.

Um grande abraço, 
Bruno Thomaz





² Fonte: Página do livro no site Skoob: http://www.skoob.com.br/livro/195-os-sete