Vida de Escritor #01 - Diogo de Souza


A partir de hoje teremos uma seção do blog voltada ao jovem escritor nacional, denominada "Vida de Escritor". Para darmos o pontapé inicial, chamamos o escritor Diogo de Souza, autor dos livros "Abascanto - A Sombra dos Caídos" e "Nêmesis - O Retorno de Astarot". Confira abaixo as brilhantes palavras do Diogo de Souza! A entrevista ficou um pouco extensa, mas garanto que vale a pena ler cada linha!! 




1) Como surgiu o Diogo de Souza, o escritor?

Surgiu em três etapas.

No começo, a Luz Eterna que sustenta todas as coisas se dobrou e gerou uma incontável miríade de reflexos. Eu sou um desses reflexos.

Depois, um belo dia, um espermatozóide atrasado chegou em um imenso muro de proteína, já desgastado pela briga com os outros milhares que tentaram rompê-lo, e lá encontrou uma brecha pequena pela qual pôde atravessar e unificar seus filamentos de DNA com aqueles que seriam seus pares por décadas.

Por fim, um dia em 2005 estava eu na casa de um amigo, e estava conversando com um pessoal, e um outro amigo meu disse: “Diogo, por que você não escreve um livro?”, e eu respondi “Ah, não sei se ficaria bom...”, e ele disse: “Bom, eu acho que você escreve bem, acho que seria um bom livro”. E foi assim. Depois desse dia, eu não parei mais de escrever.



2) Nêmesis, O Retorno de Astarot é o seu terceiro romance. Antes dele teve A Fuga de Rigel e o Abascanto. De onde vem a sua inspiração para esses romances?


A inspiração vem de algum lugar indefinível. É um produto da necessidade espiritual de cada um. Tem gente que precisa porque precisa ganhar dinheiro. Outros, precisam de status. Outros precisam viajar e conhecer o mundo. Eu preciso contar histórias. Sempre foi assim comigo, acho que sempre será. Também não quero que mude.

Aí, de repente, acontece alguma coisa na minha vida: uma experiência, um fato, ou eu vejo um exemplo, ou sinto uma emoção, e bate a necessidade: “Eu tenho que contar essa história!” É daí que nasce. O resto, a roupagem do texto por assim dizer (se ele vai ter personagens que são paranormais, anjos, magos, vampiros ou sei lá o que), isso depende muito do que eu estou achando legal no momento, mas também, nem é a parte mais importante do texto. O importante mesmo é o motivo primeiro, a razão inicial que me levou a escrever, e essa, eu não sei ao certo como surgiu na minha vida.



3) A satisfação ao terminar uma história e publicar deve ser imensa. Você poderia descrever todo o processo, desde a primeira linha da história até o livro pronto e publicado, e a sensação que você tem ao ver isso se realizar?


Oba! Essa resposta vai ser longa!

Dizem que existe dois tipos de escritores: os arquitetos e os jardineiros. Os jardineiros são aqueles que começam a escrever sem saber onde a história vai dar: eles vão acompanhando a história conforme ela cresce, se desenvolve e progride de forma orgânica, em um processo no qual eles não tem muito controle. Já os arquitetos são aqueles que planejam tudo antes de começar: cada capítulo, cada personagem, como a trama vai se desenrolar, do início ao fim.

Eu sou um arquiteto. Antes de escrever a primeira linha de cada livro, eu passo um tempo especificando o roteiro da trama, quem são os personagens, como será o desenrolar. Eu sei como vai acabar o livro antes de abrir o arquivo para começá-lo.

Então o meu processo começa com essa especificação: delineando o livro antes de escrevê-lo. É o que eu chamo de meu “roteiro literário”.

Uma vez que o roteiro está pronto, escrever o livro se torna algo simples, rápido e direto. Só requer a disciplina de você, um pouco por dia, escrever algumas páginas. No final de alguns meses, meu livro está escrito.

É preciso dizer que no caso do “Nêmesis” e do “Abascanto”, eu tive o acompanhamento de uma “coach” literária chamada Adriana de Oliveira Silva. Foi um trabalho riquíssimo e que muito contribuiu para meu crescimento como autor. Se alguém está começando e nunca fez isso, recomendo fortemente: http://coachingliterario.wordpress.com/

Mas livro escrito não quer dizer livro pronto. Um livro que acaba de ser escrito é uma jóia bruta, sem brilho. Para se tornar uma obra literária, ele precisa de refinamento, de polimento. Aí começa o meu processo de revisão. Eu releio o livro e mudo o que vou achando ruim a cada releitura. Eu faço isso umas cinco vezes, pelo menos. Isso demora mais alguns meses.

O livro revisto também não está pronto. Quando você revê um livro à exaustão, você pode chegar no máximo da sua capacidade, mas ainda está limitado à sua própria capacidade. É preciso um olhar externo: uma crítica de outra pessoa. Então, depois de rever meu livro, eu o passo para a leitura crítica.

A leitura crítica é um serviço profissional (pago), mas indispensável. Uma boa leitura crítica aponta não só erros de enredo, mas também elementos que podem mudar para tornar o livro mais acessível, mais adequado ao seu público alvo. A leitura crítica introduz a opinião de uma pessoa isenta, com conhecimento de mercado, e com uma bagagem cultural diferente da sua (e que, portanto, pode ver erros que você não era capaz de achar por si só). Ao término de uma leitura crítica, é preciso fazer uma nova revisão no livro.

Então aí eu já tinha um livro escrito, revisado, críticamente lido e revisado de novo. E depois? Depois vem a revisão gramatical e a preparação do texto.

Hoje em dia, para você apresentar um livro para as editoras, ele não pode ser simplesmente “bom”. Ele term que estar impecável. Ele vai concorrer com 300 outros (sim, o número é próximo desse mesmo) por uma chance de ser ao menos considerado. Quando você vai mandar um livro para ser avaliado, tem que ser o livro final, porque um editor pode muito bem torcer o nariz para um determinado erro de português, e um editor torcendo o nariz é igual a seu livro não ser aceito naquela editora.

Então – mais tempo – para meu livro passar por uma revisão e preparação profissionais.

Bom, aí eu tinha um livro escrito, revisado, críticamente lido, re-revisado e preparado. E depois?

Depois eu mandei para as editoras. Todas as que eu conhecia e mais algumas que eu passei a conhecer. Mandei os meus livros (todos os 3), para mais de 30 editoras todas as vezes.

De 30, uma quis publicar o “Fuga de Rigel”, nenhuma quis publicar o Abascanto, e quando eu encontrei uma que queria publicar o “Nêmesis”, a Dracaena, ela também papou o “Abascanto” de quebra. Esse foi um período árido, sem a menor espectativa de sucesso, recheado de “nãos”, e de muitas editoras que nem mesmo um “não” me mandaram. Só uma coisa me ajudou a passar por isso: é que enquanto eu esperava pela resposta das editoras para um livro, eu estava escrevendo outro (ou revendo, enfim). Então os dias que se passaram sem uma resposta (qualquer) eram preenchidos pelo afã de uma nova história.

Mas, finalmente, depois de um bom tempo, eu tinha um livro publicado, uma editora que faria a distribuição, um exemplar físico nas mãos.

Como descrever essa sensação? Seria como tentar explicar o fogo.

Em um evento de lançamento, os fatos vão se sucedendo, as pessoas aparecem e somem, eu autografo livros e aperto mãos, conheço leitores, editores e lojistas... mas não estou realmente lá. Tudo ocorre muito rápido, muito lento. Um grande silêncio sublinha tudo aquilo. Um calor morno me abraça por dentro e me faz abrir o peito devagarinho, cada vez mais, sem nunca parar, até o infinito. A gravidade se inverte e os cantos da minha boca caem para cima, como se não pudessem fazer mais nada além de sorrir. A chave que abre a porta dos sonhos a cada noite aparece em minha mão, nítida, e com ela eu olho para trás e fecho tantos anos da minha vida. Sem pensamentos, uma idéia pura se forma, uma inspiração, um sentimento sem nome: “Está pronto. Está feito. Está acabado”.

É mais um degrau que eu subo, e nem sei em direção a quê, mas sei que nunca mais sou o mesmo a cada livro que publico.



4) Agora sobre o Nêmesis, fale um pouco sobre a história, sobre o que os leitores deverão esperar.


“Nêmesis” conta a história da família Masters e do demônio Astarot. Em 1875, os Masters aprisionaram Astarot, que os estava chacinando. Astarot permaneceu adormecido até hoje, quando uma bruxa da família prevê seu retorno, e aponta como a causadora de tudo isso a jovem Isabela Zuckermann. Isabela não faz idéia de que os Masters ou Astarot existem, e se vê subitamente jogada dentro do mundo mágico desta família, de suas inimizades e ameaças. Acompanhamos Isabela conforme ela foge dos magos que tentam matá-la, e tenta descobrir o que – diabos – está acontecendo, uma busca que a levará de volta a seu próprio passado, e a segredos que ela nem mesmo sabia que possuía.

Nêmesis é um livro ágil, de ação ininterrupta. Salpicado aqui e ali, a história remete o leitor à reflexão sobre o alcance e o valor da liberdade, o que é o livre arbítrio, e que diferença podemos fazer em nosso destino, e no dos outros.

Espero que todos gostem.



5) Isabela Zuckermann é uma ginasta. Você teve alguma ligação com a ginástica ou escolheu a profissão da personagem ao acaso?


Não tenho nenhuma ligação com a ginástica (a não ser, talvez, uma admiração por quem pratica), mas também a escolha não foi ao acaso.

Eu precisava para Isabela de uma personagem que fosse determinada e obstinada. As coisas que acontecem com ela poderiam enlouquecer qualquer um: eu precisava de uma personagem que tivesse uma força interna bem sólida para aguentar o que ela aguenta e ainda dar a volta por cima, e queria estabelecer essa relação logo no início. Daí a idéia dela ser não só uma ginasta, mas bicampeã de atletismo. Uma pessoa dessas está acostumada a um ritmo brutal de treinamentos, a uma disciplina espartana. Ser campeão em qualquer esporte não é para qualquer um: é só para quem está disposto a dar a vida por isso, a usar cada gota de suor para chegar lá.

Isabela, sendo uma ginasta, estabelece logo de cara esse grau de determinação, sem que eu precise explicar com muitas palavras. Aquilo que ela faz constrói o caráter dela na mente do leitor com bastante eficácia.



6) Por que você acha que o livro irá cair no agrado dos leitores?


Eu não acho, na verdade. Eu nem sei se vai. Eu espero que, sim, ele agrade a muita gente, mas não sei – ao certo. Eu me diverti pacas escrevendo o livro. Cada capítulo foi uma curtição e uma viagem. Eu espero que alguém também possa curtir e viajar comigo nessa história, mas saber, mesmo, eu não sei.



7) Para concluir, que conselho você daria aos leitores que um dia querem tornar-se escritores, com livros publicados?


Perseverem.

Escrever é um trabalho difícil, e os resultados não são imediatos. Sejam determinados e não desistam. Não deixem ninguém lhes dizer que isso não é para vocês, mas também não percam a chance de aprender com quem já tem mais experiência. Escrever é uma coisa em que você nunca para de aprender. Cada vez mais, você pode crescer, se aperfeiçoar e fazer melhor. Portanto, não descansem. Trabalhem a cada instante pelo prazer de ver sua obra completa e entregue ao público.

Leiam tudo o que puderem, mas também saibam como ler. Ao ler um livro, se perguntem o que é que faz dele um livro bom. Que passagens lhes atraem mais? Como é que esse autor construiu suas personagens? Que técnicas narrativas estão sendo usadas? Sejam críticos nas suas leituras, e vocês verão que seus próprios textos terão um imenso salto de qualidade.

Disciplinem-se a fazer da escrita parte de seu cotidiano. Reservem um tempo para isso a cada dia, ou a cada semana – mas reservem um tempo. A frequência nesta atividade vai fazer com que ela seja incorporada na vida de cada um, e logo vocês vão é sentir falta de escrever.

De pouco em pouco, qualquer um chega lá.

Abraços,

Diogo.